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PRINCÍPIOS CARDEAIS DA ARQUITETURA SACRA

  • Foto do escritor: Bruno Minchilo
    Bruno Minchilo
  • 26 de nov. de 2025
  • 6 min de leitura

Bruno Minchilo


Este texto é um recorte do artigo “Princípios Cardeais da Arquitetura Sacra”, publicado na segunda edição da Revista Baluarte, do Instituto Brasileiro de Arquitetura Tradicional (IBAT | INTBAU Brazil).





O QUE FALTA NAS IGREJAS DE HOJE?


O ano de 2025 foi marcado pelo falecimento do Papa Francisco e pela eleição do Papa Leão XIV. A cerimônia fúnebre e todos os ritos para a eleição do novo pontífice, em um mundo nunca antes tão conectado, reacenderam o interesse pela solenidade do culto católico e pela beleza da tradição artística da Igreja. A arquitetura que envolveu as celebrações também foi notada: desde as expectativas perante a chaminé da Capela Sistina, até a apresentação do Papa Leão XIV na janela da biblioteca do Vaticano e nas posteriores celebrações nas quatro basílicas papais.


Embora não se configure um dogma de fé, a tradição artística e arquitetônica é um dos grandes tesouros que a Igreja legou ao mundo. No campo da arquitetura, esse legado se estende desde a pequena capela Porciúncula até a grandiosa Hagia Sophia com seus belos ícones e mosaicos bizantinos, que levaram à conversão de Vladimir I, o Grande; desde as grandes catedrais góticas até as obras de Aleijadinho espalhadas pelas igrejas e capelas de Minas Gerais. Esse tesouro que, ao longo dos séculos, cativou incontáveis corações, parece ainda despertar a atenção e os olhares de um mundo que carece de beleza, arte e tradição.



Figura 1: Multidão na Praça de São Pedro acompanha a primeira mensagem do papa Leão XIV, no dia em que ele foi eleito. (Foto: Angelo Carconi/EFE/EPA)
Figura 1: Multidão na Praça de São Pedro acompanha a primeira mensagem do papa Leão XIV, no dia em que ele foi eleito. (Foto: Angelo Carconi/EFE/EPA)

Nesse sentido, nos últimos anos houve um aumento significativo no número de sacerdotes e comunidades que desejam ver as suas igrejas refletirem a beleza e a profundidade da tradição católica – um anseio de que uma casa dedicada a Deus e à celebração litúrgica volte a manifestar um profundo sentido do sagrado e inspire a oração. Já é possível encontrar no Brasil escritórios e ateliês integralmente dedicados à arquitetura sacra tradicional, uma realidade que até poucos anos atrás pareceria impensável – principalmente mediante aos muitos discursos que depreciam os estilos tradicionais e os rotulam como inadequados à sociedade contemporânea.


Embora não se configure um dogma de fé, a tradição artística e arquitetônica é um dos grandes tesouros que a Igreja legou ao mundo.

Papa Bento XVI no Oscott College Mazur | catholicchurch.org.uk
Papa Bento XVI no Oscott College Mazur | catholicchurch.org.uk

Esse renascimento percebido no Brasil reflete uma realidade ainda mais ampla que já ocorre em diversos outros países: nos Estados Unidos, por exemplo, é notável a quantidade de igrejas construídas nas últimas duas décadas seguindo os estilos arquitetônicos anteriores ao modernismo. Dentre as muitas igrejas, destaca-se a Our Lady of the Most Holy Trinity Chapel, projetada por Duncan Stroik para o campus do Thomas Aquinas College (TAC), na Califórnia. Stroik, além de seus notáveis projetos, está à frente de uma das principais iniciativas na promoção da tradição arquitetônica católica: o Institute for Sacred Architecture. O instituto publica semestralmente o Sacred Architecture Journal (SAJ), que ao longo das últimas três décadas reuniu diversos artigos valiosos que buscam aprofundar as discussões acerca da arquitetura sacra e já auxiliaram muitos padres, arquitetos, artistas e leigos a melhor se instruírem no tema.





Como observa Stroik, se por um lado há um crescente desejo por uma autêntica arquitetura sacra, por outro, a maioria dos projetos e construções de novas igrejas ainda está aquém do que poderia ser, principalmente quando comparadas às construções dos séculos anteriores. Um dos grandes motivos é a falta de conhecimento acerca da composição e da articulação dos diversos elementos que compõem os estilos, o que resulta na subtração ou na má articulação desses mesmos elementos e na perda da qualidade arquitetônica das igrejas. Um dos principais meios de mitigar esse problema e melhorar a qualidade dos projetos e, por consequência, das construções, é justamente a busca por conhecimento e por boas referências: ter bons precedentes dos diversos estilos e saber como ler uma obra arquitetônica e identificar os seus elementos.


Um anseio de que uma casa dedicada a Deus e à celebração litúrgica volte a manifestar um profundo sentido do sagrado e inspire a oração.

Antes de adentrar nos estilos e nos seus respectivos elementos, parece ser proveitoso e oportuno elucidar alguns princípios comuns e fundamentais às mais diversas igrejas construídas ao longo dos séculos, mas que estão ausentes em grande parte das igrejas atuais. Esse breve artigo tem o intuito de apresentar seis princípios comuns à arquitetura sacra, que resultam de uma síntese dos que foram apresentados por proeminentes estudiosos do campo da arquitetura sacra e liturgia.


 

PRINCÍPIOS COMUNS DA ARQUITETURA SACRA


Nos últimos decênios, autores como Duncan Stroik, Pe. Uwe Michael Lang e Michael S. Rose procuraram elencar princípios comuns e objetivos presentes nas igrejas católicas de todos os tempos, lugares e dos mais variados estilos. São princípios encontrados nas antigas basílicas cristãs, nas catedrais góticas, nas igrejas barrocas e coloniais, e mesmo em pequenas capelas e igrejas conventuais. Por serem princípios fundamentais, são essenciais ao projeto de qualquer igreja, e quanto mais estiverem ausentes, maiores serão os problemas que a igreja apresentará.


No artigo intitulado “The articulation of the sacred”[1], Duncan Stroik elencou cinco princípios universais aplicados à arquitetura sacra ao longo dos séculos. Ele procurou apresentar princípios quantificáveis, que podem ser mais facilmente verificados, mensurados e ensinados. São eles: verticalidade, direcionalidade (ou orientação), ordenação geométrica, tectônica e iconografia.


Padre Uwe Michael Lang[2] também possui uma importante contribuição por meio de seu livro “Sinais do Altíssimo”[3], no qual dedica um dos capítulos para tratar da arquitetura sacra. Nesse capítulo, o padre aborda o declínio da arquitetura das igrejas contemporâneas, os efeitos terríveis da arquitetura modernista na construção de espaços sagrados e a importância do resgate da tradição da arquitetura católica. O corolário que encerra o capítulo é a proposição de quatro princípios gerais da arquitetura sacra[4]: verticalidade, orientação (ou direcionalidade), necessidade de limites e conexão entre arte e arquitetura sacra (ou iconografia).


Michael S. Rose, arquiteto de formação, jornalista e autor de diversos livros, dentre os quais Ugly as Sin, In Tiers of Glory e The Renovation Manipulation, apontou alguns princípios, os quais chamou de “leis naturais”. Em um artigo para a revista Faith & Form, no ano de 2009, intitulado “Church Architecture’s Three Natural Laws”, o autor elencou três princípios da arquitetura eclesiástica: estrutura permanente (solidez), estrutura vertical (verticalidade) e arquitetura iconográfica (iconografia).


Chapel of Our Lady of the Most Holy Trinity at Thomas Aquinas College | Duncan Stroik
Chapel of Our Lady of the Most Holy Trinity at Thomas Aquinas College | Duncan Stroik

Com base nos princípios propostos pelos três autores, podemos sintetizá-los da seguinte maneira:


·        Limites

·        Solidez / Tectônica

·        Verticalidade

·        Orientação

·        Geometria

·        Iconografia


Cabe destacar que esses princípios não devem ser observados de modo individual, mas se relacionam entre si e devem ser articulados em conjunto, com o objetivo de satisfazer os propósitos que definem uma igreja:



“A casa de oração em que é celebrada e conservada a Santíssima Eucaristia, em que os fiéis se reúnem, e na qual a presença do Filho de Deus, nosso Salvador, oferecido por nós no altar do sacrifício, é venerada para auxílio e consolação dos fiéis, deve ser bela e apta para a oração e para as celebrações sagradas.”  (Catecismo da Igreja Católica §1181).

Esses seis princípios, aplicados à construção de igrejas ao longo dos séculos, não constituem uma “fórmula”. Para que se tenha êxito no projeto e na construção de uma bela e adequada igreja, eles precisam ser articulados com rigor e competência, por profissionais experientes e qualificados que tenham familiaridade com a composição arquitetônica dos estilos tradicionais. Apesar disso, permanecem como fundamentos indispensáveis “para um verdadeiro renascimento da arquitetura sacra”[5]. Conhecê-los e estudá-los em profundidade é, portanto, um primeiro passo para aqueles que desejam cooperar na missão de edificar – ou reedificar – as igrejas de Cristo.



Sábado, 26 de Novembro de 2025,

Memória de S. Leonardo de Porto Maurício, apóstolo da Via Crucis.





Bruno Minchilo é Arquiteto e Urbanista, especialista em Arquitetura e Arte Sacra e cofundador do Instituto Brasileiro de Arquitetura Tradicional (IBAT | INTBAU Brazil). Devoto de Santa Teresa de Jesus adotou um trecho do clássico “Imitação de Cristo”, reverberado por essa grande santa, como lema para a sua vida profissional e espiritual, em uma busca continua por tornar as igrejas e, principalmente, os corações, moradas de Deus.


“É pelo preparo do aposento que se conhece o amor de quem acolhe o seu Amado”.

Imitação de Cristo. Livro 04, cap. 12, 1.



NOTAS


[1] STROIK, Duncan. The articulation of the sacred. Symmetry: Culture and Science, 2019, v. 30, n. 1, pp. 91-107.

[2] Pe. Uwe Michael Lang, sacerdote do Oratório de São Felipe Néri, em Londres. Nascido em Nuremberg, na Alemanha, é doutor em teologia pela Universidade de Oxford, e leciona história da Igreja no Mater Ecclesiae College, na St. Mary’s University e no Allen Hall Seminary. Pe. Lang foi membro da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e consultor do Escritório para as Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice. De 2008 a 2011, foi coordenador do programa de mestrado em “Arquitetura, Arte Sacra e Liturgia” na Università Europea di Roma/Ateneo Pontificio Regina Apostolorum.

[3] Título original: Signs of the Holy One: Liturgy, Ritual, and Expression of the Sacred. Ignatius Press, 2015.

[4] Cf. LANG, p.96-100.

[5] STROIK, 2019, p.92.


 
 
 

1 comentário


Eka Nurcahyaningsih
29 de nov. de 2025

A reflexão sobre a perda dos princípios cardeais na arquitetura sacra é muito pertinente; como podemos aplicar estes ricos simbolismos em construções de igrejas menores e com orçamentos limitados atualmente? Cordialmente <a href="https://jakarta.telkomuniversity.ac.id/en/college-glossary-part-1/">Telkom University Jakarta</a>

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