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UMA CAPELA DE MADEIRA DEDICADA A SÃO JOSÉ

  • Foto do escritor: Bruno Minchilo
    Bruno Minchilo
  • 15 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 16 de nov. de 2025

Bruno Minchilo





PORQUE CONSTRUIR UMA CAPELA DE

MADEIRA EM HONRA A SÃO JOSÉ?


Os Apóstolos são luzeiros para mostrar Jesus Cristo ao mundo. José é um véu para o encobrir; e sob esse véu misterioso se escondem a virgindade de Maria e a grandeza do Salvador das almas […]

Dentre todos os santos da Igreja, um é particularmente lembrado por suas mãos de construtor e artesão.


No Evangelho, São José é descrito em grego como téktōn — isto é, carpinteiro, construtor ou artesão — e é reconhecido pela Tradição sobretudo por seus trabalhos em madeira. Santa Teresa d’Ávila, no Livro da Vida, atesta com grande devoção que nenhum dos pedidos feitos a São José jamais lhe foi negado. A doutora ainda recomenda àqueles que não sabem rezar, ou que não contam com um diretor espiritual, que recorram a ele: como um verdadeiro mestre da vida interior, ensinará aos fiéis o caminho da oração.


Há, portanto, muito a se dizer sobre este grande santo, que reúne tantos títulos: Pai putativo de Nosso Senhor Jesus Cristo, Castíssimo esposo da Virgem Santíssima, Patriarca da Sagrada Família, Padroeiro das causas impossíveis e Patrono da Santa Igreja Católica. Muitos papas já afirmaram que, depois da Virgem Maria, São José é o maior de todos os santos. O bem-aventurado Pio IX, por meio do Decreto Quemadmodum Deus, em 8 de dezembro de 1870, proclamou São José como Padroeiro da Igreja Universal.


Da mesma maneira que Deus havia constituído José, gerado do patriarca Jacó, superintendente de toda a terra do Egito para guardar o trigo para o povo, assim, chegando a plenitude dos tempos, estando para enviar à terra o seu Filho Unigênito Salvador do mundo, escolheu um outro José, do qual o primeiro era figura, o fez Senhor e Príncipe de sua casa e propriedade e o elegeu guarda dos seus tesouros mais preciosos.

Foto: Mão de São José | Matheus Bazzo
Foto: Mão de São José | Matheus Bazzo

O Papa Leão XIII, por sua vez, em sua encíclica Quamquam Pluries, de 15 de agosto de 1889, aponta São José como modelo para as famílias cristãs, exemplo de esposo e de pai. Bento XV, logo após a Primeira Guerra Mundial, publicou o Motu Proprio Bonum Sane, em 25 de julho de 1920, exaltando a devoção a São José e indicando-a como solução espiritual para os problemas do pós-guerra. Já Pio XI, na encíclica Divini Redemptoris, de 19 de março de 1937, propôs São José como modelo para os trabalhadores e operários.


O santo carpinteiro não se limitava a fabricar ferramentas, instrumentos agrícolas e mobiliários; é bastante provável que também trabalhasse na construção e reparo de casas e outras edificações. Mas que grande oficina poderia manter em uma Nazaré tão pequena? Mais verossímil é que São José fosse o homem de confiança e construtor da vila, sempre pronto a solucionar os problemas cotidianos: ajustar portas, restaurar telhados, reformar móveis e ferramentas, o que fosse necessário.


No primeiro capítulo de sua obra, De Caelesti Hierarchia, Pseudo-Dionísio introduz a concepção de Deus como Luz, a qual ilumina a toda a criação à maneira de uma emanação. A mesma Luz que ilumina todos os seres, os converte à unidade em si.


Sobretudo, São José trabalhou na própria casa da Sagrada Família, em Nazaré, hoje venerada em Loreto — uma das primeiras igrejas onde se celebrou a Sagrada Liturgia. Ali, sob o seu teto, o Verbo divino cresceu em estatura, sabedoria e graça (cf. Lc 2,52). Esse foi o sacrifício silencioso de José: como não estaria no Calvário, Deus lhe confiou outra cruz, ocultando-lhe, a princípio, a concepção milagrosa de Maria e permitindo-lhe atravessar aquele drama.


É grandioso perceber que o sacrifício redentor de Cristo, unido ao da Virgem Maria, Corredentora, foi preparado pelo sacrifício de José. Recordando essa realidade, Bossuet, no primeiro precônio deste glorioso santo, exprime de modo belíssimo:


Dentre todas as vocações, destaco duas, nas Escrituras, que parecem diretamente opostas: a primeira é a dos Apóstolos; a segunda, a de José. Jesus se revelou aos Apóstolos, para que o anunciassem por todo o mundo; revelou-se a José, para que o protegesse e ocultasse. Os Apóstolos são luzeiros para mostrar Jesus Cristo ao mundo. José é um véu para o encobrir; e sob esse véu misterioso se escondem a virgindade de Maria e a grandeza do Salvador das almas […]. Quem glorifica os Apóstolos com a honra da pregação, glorifica José com a humildade do silêncio.


CONHEÇA A CAPELA SÃO JOSÉ



Dedicar uma igreja de madeira a São José é mais do que um gesto simbólico: é honrar o trabalho sagrado e silencioso daquele que edificou, com amor, o lar do Redentor.

Este foi o pensamento que nos moveu durante o projeto da Capela São José – uma capela que será testemunho constante da fé, do trabalho e do sacrifício humilde e silencioso do pai putativo de Cristo e patr ono da Santa Igreja Católica.


A capela adota um estilo vernacular, comum às pequenas igrejas de madeira do sul do país, mas ajustado segundo a realidade local. De modo geral, a arquitetura vernacular reflete o conjunto de culturas construtivas desenvolvidas a partir do saber prático e das ferramentas e materiais disponíveis em cada região. Essas soluções foram transmitidas de geração em geração, consolidando-se em tradições, estilos e linguagens arquitetônicas singulares.


Capela Santo Estanislau | Nova Prata, RS
Capela Santo Estanislau | Nova Prata, RS

No âmbito da arquitetura sacra, essa tradição ganhou especial brilho e dignidade: a rusticidade da construção popular foi enobrecida por proporções e elementos de inspiração clássica ou erudita, ainda que simplificados. O resultado são igrejas singelas e encantadoras, cuja beleza singular combina a simplicidade das construções populares com a nobreza dos elementos das tradições clássica, gótica e colonial, entre tantos outras.


A Capela São José retoma essa tradição. Sua estrutura modular simples é formada por pórticos de madeira, com fechamentos também em madeira, sobrepostos por ripas que subdividem os vãos e conferem ritmo e harmonia à composição. A essa base foram integradas a portada, as janelas e os demais elementos, cuidadosamente dispostos para se ajustarem devidamente à composição. Cada detalhe busca refletir o zelo do trabalho silencioso de São José.


Dessa forma, a Capela São José é uma lembrança viva e permanente do labor daquele que, na pequena Nazaré, foi artesão, construtor e guardião do Filho de Deus.



Sábado, 15 de Novembro de 2025,

Festa de Nossa Senhora da Divina Providência.



Bruno Minchilo é arquiteto, especialista em Arquitetura e Arte Sacra e cofundador do Instituto Brasileiro de Arquitetura Tradicional (IBAT | INTBAU Brazil). Adotou um trecho do clássico “Imitação de Cristo” como lema para a sua vida profissional e espiritual, em uma busca continua por tornar as igrejas e, principalmente, os corações, moradas de Deus.


“É pelo preparo do aposento que se conhece o amor de quem acolhe o seu Amado”.

Imitação de Cristo. Livro 04, cap. 12, 1.


 
 
 

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